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Uma viagem chamada Cinema Brasileiro – um cinema marcado para amar


E se o cinema brasileiro fosse um imenso ônibus, ele seria verde-amarelo-manga, com luz vermelha, custo da viagem pago por financiamento estatal e com direção indefinida. O ônibus é chamado carinhosamente de "Caravana Rolidei". Em cada poltrona, um kikito era deixado como uma lembrancinha para cada passageiro. No para-choque do veículo está escrito “viajo porque preciso, volto porque te amo”.

Seria uma longa viagem saindo da Estação Segretto na Baía de Guanabara, próxima a Central do Brasil, em direção a um local, que atualmente, estão chamando de Novíssimo Cinema Brasileiro. 

O ônibus só saiu do lugar, quando todos gritaram: “Pra frente, Brasil!”. 

José Dumont falou no microfone: 

- Atenção senhores passageiros, a viagem vai ser longa e nosso veículo conta com o serviço de Cinema, urubus e aspirinas; será permitido blá blá blá, cuidado com o beijo da mulher aranha e toda nudez não será castigada. Em caso de problemas, se agarrem à compadecida, se acalmem e confiem na Suely, pois ela te dará o céu! Boa viagem!

O motorista do primeiro trecho seria Mário Peixoto, homem de “vanguarda” conduziu o ônibus até seu Limite! Na altura da Cinédia, foi substituído por Humberto Mauro. Este teve total apoio de Adhemar Gonzaga. Durante a viagem, Humberto pegou uma trilha que passava por Cataguases. Ao seu lado, Alberto Cavalcanti documentava tudo e dizia que levaria esses registros para Europa.

Estavam presentes os seguintes passageiros: Odete Lara e Norma Bengell sentaram bem na frente pra não se misturar com cafajestes e as musas Helena Ramos, Nicole Puzzi, Helena Ignez, Adele Fátima e Leila Diniz, que faziam algazarra no meio do ônibus; no fundão iam os gaiatos dos Trapalhões, Oscarito, Grande Othelo, Zé Trindade e Mazarópi que mexiam com todo mundo, menos com o Jesse Valadão. Com passageiros como estes, essa jornada jamais seria uma Ilha das Flores. Nenhum deles usavam black tie.

Luiz Carlos Barreto se ofereceu para ser o cobrador, muitos vaiaram a escolha, mas Cacá Diegues argumentou, argumentou, mencionou as patrulhas intelectuais e todos deixaram para lá. O clã dos Barreto gostou da ideia, entretanto, não teve jeito, a galera gritou:

- Bota o José Wilker ou o Paulo José!

Lima Duarte ia sentado ao lado de Fernanda Montenegro e Paulo Gracindo, conversavam se valia mais a pena fazer novela ou cinema. 

A viagem seguiu passando pelas seguintes paradas: Atlântida, Vera Cruz, Boca do Lixo, Embrafilmes, Lei do Audiovisual, FSA. Pela janela, os passageiros apreciavam a paisagem: Passaram em frente ao monte com forma bem glútea, chamado Pornochanchada. Havia uma alternância entre os meios urbano e rural.

- Que papo é esse que cinema é só coisa de macho?! Gritaram Ana Carolina, Laís Bodansky, Helena Solberg, Tizuka Yamazaki, Dina Sfat, Eliane Caffé, Kátia Lund, Daniela Thomas, Anna Muyalert, Lúcia Murat! 

No quilômetro 60, o veículo adentrou ao sertão nordestino. Foi tanta vida seca na terra do sol que por instantes, todos ficaram em transe. 

No quilômetro 70, aparece Sônia Braga pedindo carona naquela Lotação. Numa determinada parada, Zózimo Bulbul subiu no ônibus – estava acompanhado de Antônio Pitanga, Joel Zito Araújo, Afrânio Vital e Adélia Sampaio – e gritou:

- Nós fazemos parte dessa viagem também!! Somos o cinema negro brasileiro!

No quilômetro 80, até que a viagem foi tranquila, pois havia recursos suficientes para a viagem continuar. Já no quilômetro 90, o ônibus dá o prego. Com o empenho de todos, a viagem é retomada.

No meio da viagem, ouviu-se um barulho seco: Bang bang! Parecia ser um tiro. Os passageiros se agitaram. A turma do cinema marginal disse: É a violência!! A turma do baixo Leblon falou: Que beleza!! A turma ficou com medo da realidade invadir aquela condução, mas veio Candeias e disse: Calma gente! É só efeito especial! E todos se acalmaram. Na direção iam revezando: Carlos Manga, Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho, Leon Hischman, Joaquim Pedro de Andrade, Person, Ivan Cardoso...

- Não!!!

Gritaram os passageiros com medo de que ele levasse todos pro inferno.

Acomodados nas poltronas, estavam Carlos Reichenbach conversando com Sganzela, Tonacci e Jean Garret sobre a importância dos cineclubes para a nossa cultura; Carvana ia todo rabugento; Wilson Grey e José Lewgoy discutiam pra saber qual dos dois é o maior vilão de todos os tempos; Neville de Almeida e Walter Hugo Khoury falavam de sacanagem com David Cardoso bastante atento; Pereio cheio dos paus berrava que pegou todas as mulheres que quis. Dercy Goncalves disse bem alto:

- Cala boca, porra!!

- Cuidado, madame! – alertou Julio Bressane.

Milton Gonçalves ía narrando tudo que acontecia dentro do coletivo:

Todos os registros e selfies da viagem ficaram sob responsabilidade de Walter Carvalho e Dib Lufti.

Hector Babenco e Anselmo Duarte falavam conversavam “pixotes’ e trombadinhas”

Domingos de Oliveira rabiscava um roteiro para ser uma peça teatral filmada e interpretada por Caio Blat.

Fernando Coni Campos dava palavras de conforto para Jofre Soares e Maurício do Valle.

Arnaldo Jabor escrevia uma crônica sobre a viagem; Walter Salles, Fernando Meireles, Claudio Assis, Beto Brant, Kléber Mendonça Filho, José Padilha, Adirley Queirós iam calados só admirando os passageiros. E Selton Mello, só sussurrando!

O mais ilustre passageiro estava sentado, calado, sem dizer nada, verborrágico do jeito que ele era. Todos estavam surpresos e foram perguntar pra ele:

- Oh, Gláuber, por que você está tão calado?

Ele respondeu:

- Porque tô curtindo muito essa viagem que não tem fim e eu quero de NOVO!

- Tem algo mais a dizer? Perguntou-lhe Zelito Vianna.

- Cinema, cinema! O assunto é cinema!!

E assim, a viagem do cinema brasileiro segue. Sem destino certo e sem hora para acabar. Agora, já sem vários de seus passageiros ilustres e com vários lugares vagos para receber novos passageiros.

A “Caravana Rolidei” segue e lá de dentro alguém grita: “Bye, bye Brasil!”

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Luca Salri
Um ser urbano que ama sua cidade e sonha diariamente com dias melhores para o mundo, nas horas vagas é professor de História. Não perdeu a mania de anotar todo filme que assistiu. Entre Histórias, filmes, músicas, realidade e sonhos; um negro em movimento que deseja fugir com o primeiro circo que aparecer na porta de sua casa.
Uma viagem chamada Cinema Brasileiro – um cinema marcado para amar Uma viagem chamada Cinema Brasileiro – um cinema marcado para amar Reviewed by Elvio Franklin on 6/19/2018 01:58:00 PM Rating: 5

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