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A alquimia tropical de Jorge Ben


“Salve! Não, não! Senta, senta, pra sair legal! Tem que dançar, dançando!”. Assim, com uma saudação seguida de uma instiga ao suingue, começa A Tábua de Esmeraldas, décimo primeiro disco da carreira de Jorge Ben Jor (Na época apenas Jorge Ben), e um dos mais importantes discos da música brasileira. Figurinha carimbada em qualquer lista de principais discos nacionais, me faltam, sinceramente, adjetivos para descrever o que esse álbum significa pra mim. Mas o que faz d’A Tábua de esmeraldas um trabalho tão forte, apesar da leveza com que Jorge nos traz as canções? Como um trabalho com uma pegada tão mística, conceitual e “viajosa” galgou os parâmetros galgados? O que, no fim das contas, fez do disco um sucesso?

O álbum foi gravado ao vivo em 1974. De cara são duas informações importantes. Uma importante pra mim. Acho álbuns gravados ao vivo em estúdio uma das coisas mais bacanas deste mundo. Pra quem não se liga, esses discos ao vivo de estúdio são uma idéia muito parecida com aqueles Acústicos MTV, que, pra todos os efeitos, são discos ao vivo, mas dentro de um estúdio bonitinho e pra um público específico. Mesma coisa aqui, e eu acho maravilhoso (Como quem não quer nada vou deixar bem aqui um dos melhores discos dessa leva de gravados ao vivo). Esse modelo de gravação é o que permite Jorge envolver seus ouvintes com pequenos gracejos, ou saudações ou coisa que o valha no início das canções. Esse é um dos maiores charmes do trabalho. Ser um trabalho da década de 70 também é fundamental para entender a verdadeira viagem que o cantor carioca nos propõe.


Durante a década de 70 vários artistas brasileiros embarcara numa onda mística. Um dos maiores exemplos é talvez o Racional, de Tim Maia de 1975. Jorge também embarcou na onda do misticismo, mas diferente do Universo em Desencanto de Tim, ele nos trouxe a alquimia como pedra fundamental do álbum. Uma verdadeira e legítima viagem. Uma aposta pessoal de Jorge, e do diretor da então Philips Records, que acreditava no potencial da proposta de trazer os alquimistas em um disco. A proposta era ousada, quem ia comprar um disco falando sobre... alquimistas?! E notem, Jorge não era nenhum iniciante, já tinha mais de dez anos de carreira e seu álbum de estréia, Samba Esquema Novo, era muito querido no Brasil e no mundo. Ainda assim, ele encontrou alguma resistência. Para a nossa sorte o disco saiu.

Doze músicas. Doze crônicas sobre personagens diversos. Esse é um dos maiores baratos de Jorge, ele é um cronista. E seus personagens convencem e nos encantam. É um poeta da mais alta estirpe (Acho que nessa altura já deu pra notar que eu pago um pau de outro mundo pro menino Jorge, e pago mesmo). Nas músicas desse disco ele traz não só as crônicas dos alquimistas como também músicas sensacionais sobre outros personagens que fogem do universo alquímico. Não vou falar de todas por motivos de: não tenho cacife para essa tarefa. Vou falar sobre as minhas favoritas do álbum, o que bota quase todas na lista.

A primeira música é uma abre alas do mais alto nível. Os alquimistas estão chegando, e dizem a que vem. O suingue com que Jorge nos apresenta seus personagens é talvez o maior mérito do disco, são alquimistas, sim, mas o balanço é de Jorge. E nesse balanço ele mostra, um a um seus parceiros alquimistas, que chegam em silêncio, discretos e que não se misturam com pessoas sórdidas.




Queria dizer que eu simplesmente amo as viradas de bateria nessa música e em “cinco minutos” música que fecha o álbum.

O homem da gravata florida tem uma das poesias mais viajosas e mais bonitinhas da música brasileira. Jorge narra a história de um homem que veste uma gravata florida. “Tá, e daí?” você se pergunta. Bem, eu não cheguei a falar, mas essa viagem com alquimia não foi algo que o cantor tirou do nada, assim da noite pro dia. Ele já fazia leituras sobre os alquimistas e se encantava com as figuras que encontrava pelo caminho, como Nicolas Flamel (Lembram daqueeele Nicolas Flamel do Harry Potter e a Pedra Filosofal? Pois então...) autor do desenho original da capa do disco e “homenageado” em O namorado da viúva, e Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, mais conhecido como Paracelso, o nosso Homem da Gravata Florida.




Paracelso era médico. Ou quase isso. E, reza a lenda, andava pra cima e pra baixo usando uma echarpe coloridérrima, Jorge interpretou a echarpe de Paracelso como uma gravata florida. Mais do que uma gravata, uma perfeição tropical, uma gravata que torna qualquer homem feio em príncipe. Uma maravilha.

Menina mulher da pele preta é um marco. Não trata de alquimista algum e foi a primeira música que ouvi do disco. Aliás, acho que foi a primeira música do Jorge Ben que ouvi sabendo o que tava ouvindo. É linda. De um suingue arrastado e sensual. Malicioso.




Uma das músicas mais significativas do disco é Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda. Aqui Jorge musicou a escrita de próprio Hermes na tal Tábua de Esmeralda, escritos esses que seriam as bases da alquimia. É a música que, junto com os Alquimistas estão chegando, traz a cara pensada pelo músico com mais clareza. Ali estão os alquimistas, em pessoa nessa, em princípios e fundamentos naquela.




Finalmente a minha música favorita, Zumbi. Aqui acho que cabem algumas explicações. Este que vos fala é um sujeito negro. Pretinho mesmo. Orgulhoso até. Mas esse orgulho, de maneira consciente de minhas raízes e recente. Uma série de vivências me levaram a noção de que não tem pra moreninho, moreno jambo, marrom bombom (Eu só perdôo o uso da expressão marrom bombom naquela música, isso aquela mesma). Sou negro. Ponto. Jorge tem um papel fundamental nessa percepção. Como disse anteriormente, ele brinca com personagens e crônicas, e ver personagens negros sendo cantados de maneira bela por um artista do porte de Ben é uma coisa ímpar. Em Zumbi, ele fala de maneira forte, mas nem por isso desprovida de beleza, do negro escravizado na Colônia Portuguesa. Princesas a venda, mãos pretas que colhem o algodão branco, é uma música que seria triste, mas há um porém: Zumbi. Zumbi é senhor das guerras e das demandas, herói do povo negro, libertador. Da forma Jorge Ben, tranqüila de ser e cantar, ele nos diz que os senhores que se cuidem, Zumbi volta, ah se volta. E eu quero é ver quando Zumbi voltar.




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Marley Correia, 25 anos, é professor e historiador. Praticante da boa e velha capoeira, então literalmente manja dos paranauê. Vive em cima de uma bike com os cachos ao vento e é vegetariano convicto. Curte poesia e música da boa. Bon vivant nas horas vagas e cabra trabalhador nas não vagas.
A alquimia tropical de Jorge Ben A alquimia tropical de Jorge Ben Reviewed by Elvio Franklin on 6/09/2016 06:10:00 PM Rating: 5

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