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O poder narrativo da Direção de Arte em "Eu, Tonya"


--- Esse texto contém spoilers ---

Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) é um cinebiografia da ex-patinadora no gelo Tonya Harding, a primeira americana a executar um Triple Axel. O Só Mais Uma Coisa já falou sobre ele aqui e aqui. Nesse texto vou falar sobre algo mais específico: o poder narrativo da direção de arte, usando Eu, Tonya como exemplo. 

Pra começar, deixa eu falar bem rapidinho o que é Direção de Arte. Esse departamento é responsável pela parte visual de um filme, traduzindo o que está escrito no roteiro em elementos visuais, resultando no que se vê dentro do enquadramento: cenários, figurinos, objetos, maquiagem, penteados, cores, texturas, formas, composições. Ou seja, todas essas escolhas que citei não são aleatoriamente escolhidas para compor um filme: tudo foi previamente pensado e justificado pela equipe de Arte para se contar a história de forma visual. Isso falando de uma forma bem resumida, mas pra quem quiser entender mais do assunto, vou deixar no final desse texto links de vídeos muito bons de um canal também muito bom no youtube chamado Ateliê de Cinema (que é o canal da autora desse texto que vos escreve, é merchan que chama, aproveita e se inscreve). 

Mas voltando a Eu, Tonya. Mesmo a Direção de Arte sendo minha área de interesse no cinema, quando assisto um filme pela primeira vez, geralmente não consigo me atentar aos detalhes de arte, prestando atenção somente na história que está sendo narrada para mim. E isso é absolutamente normal, cada pessoa tem seu ritmo e sua capacidade de absorver e interpretar elementos da narrativa: algumas já conseguem de primeira, outras precisam rever o filme uma, duas vezes. Rever o filme e precisar de um tempo para absorver o que vi é o meu caso. Claro que isso não é sempre, e às vezes consigo extrair algumas informações logo de cara, e foi o que aconteceu assistindo Eu, Tonya. Ah, e importante: eu não conhecia absolutamente nada da biografia de Tonya Harding.


Nas cenas do filme referentes às Olimpíadas de Inverno de 1992, algo me parecia estranho. Tonya (Margot Robbie) já dominava o Triple Axel, sendo a primeira patinadora americana a conseguir tal feito. Mas algo parecia errado. O locutor narrava a apresentação, criando a expectativa no espectador se a patinadora conseguiria ou não realizar o Triple Axel em uma Olimpíada. A narrativa já havia dado algumas dicas, com um compilado de cenas anteriores às Olimpíadas de Tonya caindo ao realizar o salto. Mas ainda ficava a dúvida: ela poderia fracassar, ou acertar e se superar; e isso só seria confirmado alguns segundos a seguir. Mas eu já tinha a certeza que ela iria errar o salto, e depois da confirmação eu finalmente entendi o porquê de tanta certeza: ela estava vestindo preto.

Desde o início do filme, a paleta de cores dos figurinos de Tonya raramente possuía cores mais fechadas. Seu figurino contrastava entre cores mais claras para as roupas casuais, e cores mais exuberantes para as roupas de treino e competição. O preto nunca havia sido usado até então, e ele também não aparece nas roupas de competição a partir das cenas nas Olimpíadas de Inverno de 1992. Ou seja, o preto é uma cor destoante na paleta de cores de Tonya, e seu uso, nesse contexto, causa um estranhamento, uma sensação de que algo está errado ou que vai dar errado. Além disso, tem a questão do significado das cores. Em um filme, o significado das cores utilizadas é muito relativo, mas de uma maneira geral o preto, para nós ocidentais, nos remete à morte, por ser a cor que utilizamos quando queremos demonstrar luto. E é a partir dessa competição, nas Olimpíadas de Inverno de 1992, em que a personagem está de preto, que o filme vai mostrar a vida pessoal e profissional de Tonya começando a desandar, começando a “morrer”.


Os figurinos de Tonya na infância
As cores predominantes são azul e rosa, que são complementados com cores neutras. O vermelho aparece de forma pontual. Esse padrão de cores continua ao longo do filme.




Os figurinos casuais e de treino  
O azul e o rosa continuam bem fortes na paleta de cores da personagem, sendo acrescentadas cores análogas, o roxo e o verde. Para equilibrar a paleta, cores neutras como o branco e o cinza. O amarelo e o vermelho aparecem de forma pontual.







Os figurinos de competição As cores utilizadas antes da apresentação nas Olimpídas de Inverno de 1992. O padrão continua, com a predominância do azul e do rosa, porém em cores mais exuberantes, reforçado pelo brilho das lantejoulas e acessórios.







Figurino da apresentação nas Olimpíadas de Inverno de 1992. O preto é totalmente destoante do restante da paleta de cores.



Depois dessa cena nas Olimpíadas de Inverno de 1992, a paleta de cores dos figurinos de Tonya retorna ao seu padrão original, com a predominância do azul e do rosa, com variações para o roxo, verde, vermelho, e algumas cores neutras para equilibrar.


Porém, o filme vai mostrando como a vida pessoal e profissional de Tonya vai se complicando até chegar às cenas finais. No julgamento, dentre outras decisões do juíz, estava a sentença de banimento vitalício da Associação de Patinação Artística dos EUA, seja como patinadora ou como treinadora. Tonya responde com um discurso de como aquela decisão tem um peso de prisão perpétua para ela.

As cenas seguintes à condenação, correspondendo ao final do filme, mostram Tonya em sua breve carreira como boxeadora. E aqui o preto retorna mais uma vez, através do seu uniforme, só que com menos (nenhum) brilho e glamour. A cor preta, que de forma geral tem essa aproximação com a ideia de “morte”, “luto”, aparece em dois momentos cruciais da narrativa e sempre quebrando com o padrão estabelecido pela paleta de cores. Na primeira vez, o preto surge para representar um momento de instabilidade, de ruptura com o que Tonya havia conseguido até ali; e no segundo momento aparece como um encerramento de ciclo, o fim da carreira como patinadora, a prisão perpétua de Tonya, coincidindo com o final do filme, sua última cena, a última parte que a obra deseja abordar sobre a vida e carreira de Tonya Harding.



Obviamente, por se tratar de uma cinebiografia, boa parte da pesquisa em relação ao figurino teve a vida real como referência, através da reprodução das roupas, acessórios, cabelo e maquiagem para os personagens. Mas ainda assim é possível fazer um uso criativo do figurino ao escolher quais os trechos da biografia abordar. E claro, com uma dosezinha de manipulação, alterando uma coisinha ou outra, pois, apesar de baseado em fatos reais, com o máximo de fidelidade possível e desejado, ainda estamos diante de uma ficção.




Esse texto todo é só um exemplo de como a Direção de Arte funciona como elemento narrativo, de como é possível contar uma história visualmente, traduzir um roteiro em elementos visuais. Aqui, pegamos como exemplo as cores no figurino da personagem Tonya, mas esse mesmo cuidado do uso em relação às cores também se aplica às locações escolhidas, na confecção dos objetos, na composição, nas formas, tanto aqui como em qualquer outro filme. Mesmo que não consigamos prestar atenção nesses detalhes ao assistirmos um filme pela primeira vez, a gente acaba absorvendo essas informações de forma inconsciente, através do conjunto criado pela Direção de Arte, transmitindo sensações e atmosferas aos espectadores.


Links para quem quer saber mais sobre Direção de Arte:






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Renata Rolim
Bacharel em Cinema e Audiovisual, filha das trevas e a maior diretora de arte que você respeita. Renata é vegetariana, ciclista e metaleira, divide seu tempo entre apanhar de seu gato, Ozzy, e sobreviver ao sol de Fortaleza sendo trevosa. Nas horas vagas, comanda o melhor canal de cinema focado em direção de arte do YouTube, o Ateliê de Cinema.

O poder narrativo da Direção de Arte em "Eu, Tonya" O poder narrativo da Direção de Arte em "Eu, Tonya" Reviewed by Mylla Fox on 3/28/2018 12:21:00 PM Rating: 5

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