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A Luta do Século - O combate que o cinema jamais imaginou contar



“Gosto de sangue
É o paladar/ Eu sou do ringue Eu vou lutar
Vida é luta/ Luta é vida
E a vingança é o prato/ Que se come frio
Gosto de sangue
É o paladar/ Eu sou do ringue/ Eu vou lutar
Esquiva da dor/ Esquiva da fome
Esquiva do ódio/ Esquiva!"

(Russo Passopusso)


“Bem amigos do SMUC! Estamos aqui para anunciar a luta que é considerada “A Luta do Século”. Depois de seis confrontos, com três vitórias para cada um dos oponentes, é hora da revanche definitiva para saber quem é o maior! Desde que a luta foi anunciada para o dia 11 de agosto de 2015, baianos e pernambucanos - lutadores e torcedores - estão ansiosos por esta luta. São onze anos de muita espera. Neste canto, um pernambucano arretado de 50 anos, com 70 lutas e 57 vitórias! Um provocador inveterado! Ele diz que veio para “estraçaiá”! Luciano “Todo Duro” Torres! 

No outro canto, temos um baiano de 49 anos, com 49 lutas e 42 duas vitórias! Ele leva as coisas muito a sério e não tem paciência com pernambucano! Ele vai “esbagaçá”! Reginaldo Holyfield! Na “direção” dessa luta, temos o baiano Sérgio Machado! Esse conhece o mundo do boxe! Foi ele que colocou os amigos Lázaro Ramos e Wagner Moura para brigar no seu filme “Cidade Baixa” (2005). A luta vai ter seis rounds! Atenção! Vai começar o combate! ...Soa o gongo! 

1º ROUND


Ação! ... Corta! 

O que acabou de ser narrado e abruptamente interrompido foi escrito por um fã do pugilismo. Ou seria um cinéfilo que curte boxe? Acho que seria os dois! Um “cinéfilo fã de boxe”! Antes de darmos continuidade a tão aguardada luta, acho importante remontar as relações criadas entre quem vos escreve com o boxe e do cinema com o boxe. Nesta última relação, cinema e boxe construíram vínculos eternos que são mais fortes do que qualquer peso-pesado que tenha surgido, seja no mundo real ou fictício.

Devo confessar que o cinema me apresentou o boxe. As minhas memórias mais antigas deste esporte na telona são: a antológica cena de Chaplin lutando em Luzes da Cidade (City Lights, 1931) e a série Rocky; depois a TV me apresentou os combates bem pastelões nos Trapalhões e os pugilistas de verdade nas lutas transmitidas aos sábados à noite, pela rede Globo ou pela Bandeirante. Na minha adolescência veio o interesse de verdade pelo esporte. Aí veio Tyson, Foreman, Holyfield, a orelha de Holyfield, Ali e concomitantemente a isto, o interesse de assistir a mais filmes com esta temática só aumentava. Agora não era só a luta que me chamava atenção, eram os dramas, os heróis, suas superações dentro e fora do ringue. Na crista da onda desses filmes, estava o “Garanhão Italiano” Rocky Balboa dentro de uma franquia com seus altos e baixos. 

Vale ressaltar que desde os irmãos Lumière, o boxe é retratado no cinema. Inserido numa dinâmica de comicidade, ele contribuiu bastante com a consolidação da nascente indústria do entretenimento. Chaplin e Buster Keaton fizeram estripulias sobre o ringue. A partir dos anos 30, os filmes “ingênuos” de boxe dariam lugar a obras cinematográficas mais densas. Daí em diante, o boxe tornou-se inspiração e tema para tantos filmes ao longo da história do cinema.


2º ROUND


"♪ Na clareira em pé está o boxeador, Um lutador por ofício
E ele carrega uma lembrança de cada luva que lhe abateu
ou lhe cortou até gritar em sua raiva e sua vergonha
Estou indo embora, estou indo embora"
Mas o lutador ainda permanece ♫"

(The Boxer - Simon & Karfunkel)

Como explicar essa fonte de inspiração e temas que o boxe oferece ao cinema? Podemos traçar uma resposta a partir de dois motivos: o técnico e a dramaticidade. Em termos técnicos, poucos esportes são tão bem retratáveis no cinema quanto a “nobre arte”. Ele se adéqua bem às exigências técnicas de filmar. O ringue é um espaço de trinta e seis metros quadrados, só por essa informação, nota-se que filmar dois pugilistas sobre um ringue facilita muito o trabalho da produção, das filmagens e da montagem. O diretor coloca a câmera como e onde quiser, conseguindo transmitir o que passa nele. Pelas pequenas dimensões do ringue, é possível mostrar a luta em ângulo aberto, em campo e contracampo, a emoção da plateia, o espectador tem a sensação de estar ao lado do lutador e principalmente a câmera capta os detalhes. São closes no rosto suado, no olho inchado e a queda do lutador em câmera lenta. Acredito que todos os diretores que fizeram filmes sobre o boxe ou utilizando-o como pano de fundo em suas obras cinematográficas, tiveram uma boa oportunidade de exercitar o trabalho de câmera. E foram tantos, só para citar temos: John Huston, Stanley Kubrick, Martin Scorcese, Clint Eastwood, etc. 

Em termos de dramaticidade, o ringue assume a metáfora de um mundo tão violento quanto o combate de pugilistas sobre ele. No quadrilátero não estão apenas dois homens lutando entre si, na verdade é a relação deles com o mundo real. O crítico de cinema Luiz Carlos Merten escreveu: “Mais do qualquer esporte, o boxe se presta a expressar na tela o conflito que o homem vive no mundo. Ele é basicamente violento, e isso expressa a relação com nossas mazelas.” Os filmes de boxe, sejam baseados nas vidas de grandes pugilistas ou em histórias ficcionais, sempre trazem personagens sob os mais diversos aspectos (é o novato, o lutador decadente, é a mulher fiel, é o técnico leal, o empresário corrupto, ...) , são lutas dentro e fora do ringue, o combate é contra outro lutador, mas, é contra a pobreza, o fracasso. É a luta pela honra pessoal, pela sobrevivência e pela glória de conseguir uma vitória no ringue e na vida. E aqui se encontra a força do pugilismo para inspirar tantos filmes sobre o ele. Ressalto que tudo isso só funciona, quando se tem boas histórias para serem contadas. A velha fórmula do “cair, levantar e vencer” foi exaustivamente utilizada e deu bastante certo em diversas obras. Vale ressaltar, que historias sem a glamorização dos lutadores também funcionaram. 

3º ROUND


"O boxe é a redenção e reencantamento
para o desencantamento, para a tragédia,
para a falta de opção em um mundo cruel."

(Vicente Andrade de Melo, historiador)

Chegamos até aqui no texto e “A Luta do Século” não foi abordada a fundo. Pode-se levar a crer que estou enganando o leitor/expectador para desistir de ler/ver a luta. Parece aqueles intermináveis comercias de TV que passam antes de começar a luta. 

Mesmo sendo um documentário, a obra de Sérgio Machado apresenta muitos elementos comuns em filmes de boxe que foram citados acima: dois ex-lutadores, de origem humilde e “caricatos” – deixam a aposentadoria e resolvem se encontrar pela última vez no ringue; antes da luta, eles se preparam e lutam para sobreviver. Não há glamour na vida desses lutadores, só o desejo de se manter em pé no ringue e na vida. Parece bastante com uma sinopse de filme de ficção, não é? Não foi à toa, que o desejo inicial do diretor era fazer uma obra ficcional baseado na rivalidade dos dois lutadores, tendo Wagner Moura e Lázaro Ramos nos papéis principais (no meio da pesquisa do projeto, Machado percebeu que o documentário sobre os lutadores era mais potente do que uma ficção – ainda bem!).


Como uma obra documental, “A Luta do Século” apresenta algumas características bem comuns aos documentários de estéticas clássica e moderna. Se pudéssemos dividir a obra em duas partes, a primeira teria uma relação mais próxima com a estética clássica do cinema documental com narração em voz over e material de arquivos – fotos, reportagens de jornais e participação dos lutadores em programas televisivos – para narrar as seis lutas anteriores e como se construiu a rivalidade entre Luciano e Reginaldo. É o auge dos atletas que é retratado. Dá pra sentir falta de alguns arquivos, que facilmente são encontrados no Youtube, onde a rivalidade dos lutadores estão em evidência? Dá! Mas o documentário de Sérgio Machado não se detém em detalhar luta por luta, o objetivo é a luta que ainda vai acontecer, aquela que foi chamada de “a luta do século” antes mesmo de acontecer.

Já a segunda parte, - aquela que se preocupa com a preparação, o cotidiano dos atletas e a grande luta em si – se aproxima muito do documentário de estética moderna com ausência de depoimentos de convidados ligados diretamente aos documentados e a câmera acompanhando o dia-a-dia dos lutadores, como alguém que observa a intimidade dos atletas. Nesta parte, o espectador é levado a refletir o porquê desses dois grandes lutadores - que outrora viveram o auge – bateram na trave no que diz respeito a disputar um título mundial e chegaram a uma situação próxima da miséria. Derrotas, carreiras mal conduzidas, falta de sorte? O que mais importa no documentário é mostrar que eles continuam de pé. 


Como todo documentário, a obra de Sérgio Machado é também uma “representação do real” (expressão utilizada pelo teórico Bill Nichols), uma representação da rivalidade entre os lutadores, que culminou numa sétima luta – algo que só foi concretizado durante a feitura do documentário. Quando se trabalha com documentários, duas características que se constroem entre quem realiza o filme e quem é documentado são a empatia e a confiança e aqui isso se deu de forma positiva. Quando Sérgio Machado chegou até eles, já havia uma pesquisa prévia e a medida que as gravações avançavam, criou-se um elo entre o diretor e os lutadores. Com isso, o realizador conseguiu abordá-los com respeito, sem fazê-los de pobres coitados.

Assim como na música “Esquiva” de Jorge Du Peixe e Beto Villares que faz trilha sonora do documentário, Todo Duro e Holyfield esquivaram-se de tudo na vida para chegar até ali, de pé com os punhos erguidos. Só não se esquivaram da rivalidade que há entre eles. Rivalidade que deixa na lona até a mais famosa rivalidade construída pelo cinema: Rocky Balboa e Apolo Creed- e olha quem vos escreve é um fã da franquia do Garanhão Italiano. Rivalidade alimentada pelas provocações de Todo Duro e pela raiva quase incontrolável de Holyfield. Havia jogo de cena nesses encontros? Por parte dos atletas, possivelmente não; entretanto, para quem promovia tais encontros e para o público que os assistia, ficava a torcida para vê-los se engalfinhando. E são nestes encontros que residem a parte mais cômica do documentário. O público vai rir, mas na cena seguinte, ele é levado a refletir (outra vez) sobre a vida sofrida dos lutadores. Eles não se fazem de coitados, continuam de cabeças erguidas e de alguma forma se agarram na ideia de que a rivalidade construída por eles, e que vencer o outro é voltar ao topo.


E a luta em si? Bem, numa procura rápida na internet, você poderá vê-la na íntegra ou os seus melhores momentos, entretanto, a maneira que ela é mostrada no documentário é de uma beleza, que não irei descrever. Só assistam!

No mais, “A Luta do Século” é um ótimo documentário (bem que poderia ser mais longo!). Os fãs do incrível Quando Éramos Reis (When We Were Kings, 1996) – documentário oscarizado de Leon Gast que aborda a consagrada luta entre Muhammed Ali e George Foreman no Zaire em 1974 – irão gostar do documentário de Sérgio Machado. É o tipo da obra que “cai como uma luva” – cedo ou tarde esse trocadilho infame iria aparecer – na ideia de que é um filme “que não termina quando acaba”. Como qualquer luta memorável, os principais golpes ficam martelando em nossa cabeça, “A Luta do Século” nos nocauteia sem nos derrubar.

Em tempos de MMA, o boxe se esvaziou em termos de mídia, patrocínio e atletas de renome atualmente. O que vale foi o que se notabilizou nos filmes boxe: dramas pessoais de luta e superação, com combates que são coadjuvantes das situações pelas quais passam os lutadores, cujos perfis expressam um determinado momento histórico. Enquanto houver boas histórias de pugilistas a serem contadas, a parceria entre boxe e cinema esta longe de soar o gongo final.

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PS: Aí veio o dia 15 de março e fui à pré-estréia do documentário, aqui em Fortaleza, que contava com a presença dos dois lutadores. Antes da sessão, humilde e pacientemente, esses dois senhores simpáticos cumprimentaram seus fãs, passando por intermináveis sessões de fotos, sempre os punhos erguidos, como se próximo round fosse começar em instantes. Fui como um fã de boxe, de Ali, Tyson, Maguila e Rocky Balboa – este, como um herói perfeito – e saí de lá, encantado com dois seres imperfeitos, genuinamente brasileiros, com grande força de superação. Luciano e Reginaldo. Separados por razões óbvias! Porém, unidos pela vontade de vencer na vida. A seu modo, “estraçaiando” ou “esbagaçando”, Todo Duro e Holyfield tornaram-se gigantes.

PS2: Antes de assistir “A Luta do Século”, veja o curta de Tiago Leitão Vou Estraçaiá (2011), um documentário sobre Luciano “Todo Duro”. É preliminar de primeira pra ser vista antes da grande luta. Mas pode se ver depois também.

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Luca Salri
Um ser urbano que ama sua cidade e sonha diariamente com dias melhores para o mundo, nas horas vagas é professor de História. Não perdeu a mania de anotar todo filme que assistiu. Entre Histórias, filmes, músicas, realidade e sonhos; um negro em movimento que deseja fugir com o primeiro circo que aparecer na porta de sua casa.
A Luta do Século - O combate que o cinema jamais imaginou contar A Luta do Século - O combate que o cinema jamais imaginou contar Reviewed by Elvio Franklin on 4/06/2018 12:06:00 PM Rating: 5

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