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Castlevania e a Dualidade da Imortalidade


Desde o lançamento de Drácula, do romancista Bram Stoker, no final do século 19, a figura do vampiro vem evoluindo e ganhando cada vez mais popularidade.

Obviamente, antes de expandir o universo vampiresco, Drácula precisava ser consolidado no imaginário popular. Apesar de existirem mais de 200 filmes sobre e com o personagem, acredita-se que os 3 essenciais para a construção do sanguessuga que conhecemos hoje sejam: Nosferatu (1922), o primeiro filme de vampiro, feito durante o expressionismo alemão, que nos apresentou a fraqueza do monstro pela luz do sol; Drácula (Dracula, 1931) que trouxe a elegância, vestimenta e o apelo sexual, dando um ar aristocrático ao personagem; e O Vampiro da Noite (Dracula, 1958) que adicionou os caninos pontudos ao visual do conde.

Muitas culturas ao redor do mundo tem mitos e lendas de seres que sugam a energia de suas vítimas. O sincretismo dessas narrativas possibilitou que os vampiros ganhassem uma complexidade enorme. A evolução foi tamanha que esse subgênero de filmes começou a se relacionar com vários outros gêneros, não se limitando mais ao terror e suspense. Inclusive, sendo usado para discutir assuntos contemporâneos, como homosexualidade, imigração, xenofobia, não adequação a sociedade e até mesmo racismo, como no filme Blacula, o Vampiro Negro (Blacula, 1972).


Atualmente, esses seres da noite estão presentes em todos os produtos do entretenimento, seja em filmes: Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles, 1994), Amantes eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008), O Que Fazemos nas Sombras (What we do in the Shadows, 2014) e Anjos da Noite (Underworld, 2003); animes: Hellsing Ultimate (2006 - 2012); RPGs: Vampiro, a máscara; Series: The Vampire Diaries (2009 - 2017) e True Blood (2008 - 2014); e, finalmente, jogos como Castlevania (1986).

Nos últimos anos, as tentativas de adaptações de jogos para o cinema tornaram-se cada vez mais frequentes. É então que em 2017, a Netflix lançou a primeira temporada da animação Castlevania. Sob o comando do showrunner Adi Shankar, dirigida por Sam Deats e roteirizada por Warren Ellis,  de Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013) e Dead Space (2008). A história gira em torno da vingança do Drácula sobre a humanidade, depois de sua esposa ser executada por bruxaria pela igreja. Então, acompanhamos a jornada de Trevor Belmont, o último descendente de uma longa linhagem de caçadores de vampiros; Sypha Belnades, uma oradora praticante de magia elemental, e Alucard, o filho de Drácula, para impedir o massacre dos humanos.


A primeira temporada do seriado tem apenas 4 episódios de 20 minutos. Isso prejudicou muito o desenvolvimento dos personagens. A queda de quadros durante as cenas mais dinâmicas, junto com diálogos corridos e explicações expositivas, gerou no público a sensação de que os animadores e roteiristas tiveram que entregar um produto que não estava totalmente finalizado, apenas para cumprir uma data ou um orçamento pré-estabelecido. Apesar do plot principal funcionar, parece que tudo está ocorrendo apenas para que o trio se junte no final, mostrando que a estrutura de videogame precisa ser trabalhada antes de ser inserida em outra mídia. Isso tudo concede a primeira temporada um ar de prólogo, ao invés de uma série em si.

Entretanto, o primeiro ano tem suas qualidades. O design e a estética da animação são muito bonitos e o sangue, juntamente com o gore, está presente em todos os episódios. Além disso, os personagens, apesar de rasos, aparentam ser interessantes e o vislumbre da grandeza daquele universo, de suas histórias e suas regras, permitem ao público se manter instigado durante todos os episódios.


Apesar das inúmeras críticas, a animação foi renovada e em 2018 ganhou a sua segunda temporada. Agora com 8 episódios de 20 minutos. O novo ano da série resgata tudo o que deu certo anteriormente e evolui. Os cenários estão mais detalhados e os personagens mais complexos, com uma movimentação mais fluida. A fotografia está mais bem trabalhada, o roteiro mais consistente e a trilha sonora acerta no que se propõe, porém quando utiliza as trilhas dos jogos, como Blood Tears no episódio 7, fica evidente que ela poderia ter tido uma atenção maior.

Um dos pontos altos da temporada é a apresentação do conselho de guerra do Drácula. A adição de diversos generais nessa cruzada genocida do Conde expande o universo da série e permite que o tabuleiro de xadrez seja ampliado, mostrando vários pontos de vista a respeito desta guerra. No entanto, apenas dois generais vampiros são realmente explorados de maneira interessante, Godbrand, o vampiro viking e Carmilla, a vampira responsável pela intriga na corte. Isso é uma pena, já que os generais têm visuais bem distintos, aparentando serem de várias partes do mundo, como China, Oriente Médio, Índia e Europa.


A história do segundo ano continuou se baseando em Castlevania III: Dracula's Curse (1989), mas também buscou adaptar alguns pontos de Castlevania: Curse of Darkness (2005), essa mescla foi bem executada e resultou nos dois personagens coadjuvantes mais bem trabalhados da animação: Hector e Isaac. Desde a concepção esses dois mestres de forja já chamam atenção. Eles são os únicos humanos entre os generais do Drácula, agindo muitas vezes também como conselheiros e amigos do Conde, e por isso a dinâmica deles na corte e com o antagonista é sempre curiosa de se observar. Hector e Isaac são personagens cinzas, e por isso, apesar de odiarem a humanidade, cada um tem o seu próprio pensamento sobre essa guerra e como ela deveria ser travada.

Um bom vilão precisa ter profundidade e ideais, acreditando que ele é o herói de sua própria história. Assim como Thanos e Killmonger, Drácula tem as características necessárias para ser um antagonista marcante, afinal, a série é dele, é sobre a sua vingança, seu ódio, seu senso de justiça, suas frustrações e além de tudo, sobre o seu sofrimento.


Imortalidade é muitas vezes vista como uma dádiva. Você poderá ter todo o tempo do mundo para ser quem quiser, visitar qualquer lugar, conhecer qualquer pessoa, mas o vazio que essa suposta dádiva submete o indivíduo é desesperador. Você presencia a morte de todos os seus entes queridos sem poder fazer nada a respeito. Essa experiência pode enlouquecer a pessoa, fazendo com que ela não se recorde mais de quem realmente é, depois de tantas vidas vividas, ou pode causar o isolamento emocional do indivíduo, afinal, tudo vai morrer em algum momento e ele terá que apenas observar. Um quadrinho que discute muito bem esses conceitos é Sandman Vol 1: Homens de Boa Fortuna de Neil Gaiman. Drácula passa exatamente por isso. Ele é uma criatura imortal, o ser mais poderoso de sua espécie, que não vê mais sentido na sua existência depois da morte da única pessoa que ele se permitiu amar em eras. 

O castelo do vampiro reflete a sua essência e o seu psicológico atual, materializando todas as experiências e conhecimentos adquiridos durante séculos, mas também repleto de corredores gigantescos e cômodos desocupados, talvez, representando o vazio que o personagem está sentindo naquele momento. O castelo está sem vida. O único ponto fraco na construção de Drácula é a sua relação com Alucard. Ela é importante porque os personagens nos falam que é. Talvez isso se resolvesse com um simples flashback da rotina que a família tinha enquanto Lisa estava viva. Contudo, com todo esse background e dualidade do personagem, o público se vê entendendo o porque desta cruzada genocida estar acontecendo, apesar de, provavelmente, não concordar com ela.


Por fim, Belmont, Sypha e Alucard funcionam muito bem juntos. O trio consegue ter diálogos afiados e combinações de poderes bem criativas na hora das lutas, utilizando as vantagens de cada um para avançar no combate. Infelizmente, como o começo da dinâmica dos heróis ocorre na primeira temporada, ela não consegue ser totalmente boa na segunda. A formação da equipe foi mal feita, então mesmo que as relações melhorem, a sua base sempre será estranha.

Castlevania consegue trazer nos seus 12 episódios uma trama cativante e um vilão com diversas camadas e questionamentos. Apesar do começo medíocre, a história evolui e ganha complexidade, sabendo adaptar os pontos fortes do jogos para a TV, funcionando para quem não conhecia a franquia e inserindo vários fan services e easter eggs para os jogadores clássicos, mostrando que com boas ideias e uma execução adequada, histórias de vampiros dificilmente vão abandonar o imaginário popular.

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Rodrigo Hilario
Editor e host dos podcasts Biblioteca e Playground do Vilacast. Autodidata de Youtube e ex valentão da escola. Hilário adora mitologias em geral, astronomia e desenhos animados, mas seu passatempo favorito é irritar as pessoas e geralmente consegue. Sonserina orgulhoso, ariano, otaku reprimido e chaotic evil.
Castlevania e a Dualidade da Imortalidade Castlevania e a Dualidade da Imortalidade Reviewed by Elvio Franklin on 11/27/2018 04:39:00 PM Rating: 5

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